Aquele brilho em todos os lados, o barulho dos metais das moedas se chocando sem parar, estávamos ali em um país diferente dentro do marco da luxuria e da gana. Um cassino, e o pior é que me sentia bem.Parecia fácil de mais: enfie uma nota de 10 pesos, aperte um botão algumas vezes e acabe com o dinheiro multiplicado, em pouco tempo com cerca de 200 pesos argentinos em moedas de um dentro de potes pretos e verdes, enquanto tomava um bom vinho argentino. Dominado pela música da maquina eu queria mais e mais, um quase acerto era um surto de raiva interno, acertar era êxtase puro contido nas demonstrações, então já não me lembro bem, pedi um drink atrás do outro, me chamaram para ir embora algumas vezes e então me deixaram, eu e o meu mais novo prazer: ganhar.
Então, tudo começou a acontecer rápido de mais, uma garrota que acho que era bonita senta ao meu lado, outra segura a cadeira dela. Isso quando eu estava quase sem dinheiro, eu acho; e então começo a ganhar e não entendia porque, ela tenta me explicar, mas digo que mal entendo português a essas horas da noite imagina espanhol.Pedi bebidas para elas, acho que aceitaram. Fiquei jogando junto com elas revezando as duas maquinas emprestando dinheiro. Jogávamos praticamente juntos, torcendo um para o outro, e quando tinha, pelas minhas contas, mais de mil pesos na carteira (umas dez vezes o valor com que cheguei), fui colocar mais dinheiro na maquina e não achava minha carteira, me desesperei, fui falar com o segurança que passa ali de um lado para o outro, roubaram minha carteira, eu preciso da minha carteira, ela tava bem aqui, ele disse alguma coisa que não entendi, olhei para as caras assustadas das garotas, e pensei isso não vai ficar assim, e então levantei a voz e disse: como assim não pode fazer nada? Você é segurança de quem aqui? Por um acaso não é dos clientes? E ele disse alguma coisa com responsabilidade no meio, a responsabilidade não é sua você quis dizer?
Gritei e a aglomeração já estava formada e então um cara de terno cinza se aproxima e pergunta pro segurança o que aconteceu? Eu tento falar o que aconteceu, mas me atropelo todo nas palavras, acabo falando que o segurança me roubou. Ele aponta para uma porta ao lado do caixa e diz para conversamos com calma enquanto a garçonete me oferece uma bebida e diz para eu me acalmar. Olho na cara das cerca de 20 pessoas que observam e sinto alguém me puxando para traz. Uma das garotas me abraça e diz calma, o que queres eu falo para eles; a outra me abraça do outro lado e fala com os dois seguranças e vão me empurrando para traz enquanto eu digo: diz pra eles que ele tem que achar o meu dinheiro e os meus documentos.A que estava conversando com os seguranças me entrega um copo. Eu viro e elas me carregam para fora. Não costumo oferecer muita resistência a duas garrotas. Elas me levam até um bar onde tentam entender onde eu moro finjo que não entendo, digo depressões desencontradas, então fica decidido que explico no caminho, bebemos mais algumas doses de rum depois tequila, e então vamos.
Na aduana não me deixam passar, e eu agora não entendo realmente nada do que eles falam, começo a chamar o policial de preconceituoso maldito, em um portunhol que mais parecia inglês, então eu o chamei de nazista e ele entendeu. Chamou os guardas que apontando armas para mim me tiraram do carro, me revistaram por mais de vinte minutos e não paravam de me mandar calar a boca. E de repente como sem motivo me liberaram, entrei no carro, deitei e disse que morava perto da ponte da amizade e depois dormi.Acordei com chaqualhões que me deixaram tão enjoado que eu gritei que parassem, então sai correndo em direção à beira da pista, fui pular o que achei que era a mureta quando me agarro nela em choque, enquanto vomito percebo que estamos em cima da ponte da amizade, pulei a grade entre a pista de carros e de pedestres, caio com o peito no para peito, quando o vomito para eu me jogo por cima da grade de novo e deito na pista de carros.Depois, me lembro de estar sendo arrastado para um prédio em ruínas com carros na garagem que fariam inveja a qualquer um.
Ao entrar no apartamento recobrei a consciência após beber quase uma jará de suco e comer um pastelzinho, o mais gostoso que eu já comi. A casa tinha infiltração em todas as paredes, no chão tinha uma possa de água. Uma tv de umas 42 polegadas estava quase no meio daquela sala vazia que fazia companhia a 2 computadores e um notebook todos virados para a sacada. Muito contrastante: uma (das garotas)delas arruma umas cobertas no chão para mim, a outra fuma um cigarro na varanda. Esbarro-me numa mesa onde tem uma sacola com o que a primeira vista parece erva mate, pergunta o que é? Capolho (maconha virgem ou maconha não prensada), ela responde, e me pergunta se quero, digo que sim. Ela vem e coloca a carteira, pulseiras e outros acessórios sobre a mesa e pega um cigarro de capolho ao lado da sacola. Eu vou direto ao pingente da sua carteira: dois símbolos feministas entrelaçado. Ergo e digo olhando pra ela: isso quer dizer que não vou comer ninguém hoje, simulando uma tristeza irônica. Ela me olha e eu me arrependo do que disse. Da uma risadinha e diz em um portunhol, pensei que disputávamos a mesma mulher, vamos para fora, e eu dando uma risadinha meio forçada.E com aquela vista triunfante de Foz ela me passa a cigarrilha acesa dou uns dois tragos e as coisas começam a acontecer rápido de novo.Quando vejo estou no banheiro abraçado ao vaso e a que eu acho não ser a dona da casa segura os meus cabelos. Já está tudo apagado e o dia clareado, a minha “cama” está toda desarrumada, me deito. Ela se despede.Não sei quanto tempo passou e eu queria ir ao banheiro, entro na primeira porta que vejo um quarto que contem só uma cama de casal grande com duas mulheres nuas se beijando de joelhos, tiro a minha roupa no ato, dou um passo a frente e um forte zumbido no ouvido que eu perco a visão.
Cansado e golpeado largo o meu corpo e pego no sono em segundos. No outro dia lá pelas seis da tarde acordo com uns shorts novos, e ninguém no quarto. Vou ao banheiro, no caminho escuto um barulho na cozinha e encontro as minhas roupas. Eu troco e vou a cozinha, só está a dona da casa, peço desculpa, minha cabeça começa a arder. Tudo bem, ela diz, quer que eu te leve agora então? Pergunta. Eu digo vamos, ela me leva de carro sem dizer uma palavra, me deixa a duas quadras de casa, e eu até hoje me pergunto qual era o nome delas.